quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Como Nossos Pais

Aproveitando que o cantor Belchior esteve, recentemente, em evidência na mídia, trago uma letra com vários sentidos entrelaçados e transversalisados, com mensagens ocultas só captadas pelos aspectos sócio-políticos da época em que foi escrita, por isso, fica a dica: Belchior escreveu essa música em 1976.

Qual seria o perigo na esquina? quem venceu e venceu o quê? O que é o "novo" que sempre vem? De que ídolos ele fala? Quem conta o vil metal? Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?

Não espero que os comentários tragam todas essas respostas, apenas pontuei alguma coisa a ser observada, mas, há mais coisas na letra. Não tenham medo de errar, pois, aqui só pretendo despertar olhares e não julgá-los. Eu tenho o meu olhar e cada um tem o DIREITO de ter o seu.

Manifestem-se




Letra: Como Nossos Pais
Composição: Belchior

Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

5 comentários:

  1. Música composta em plena ditadura militar. Uma análise do comportamento da juventude da época. Acho que Belchior quis descrever (e criticar) uma certa posição entreguista dos jovens, sem reação diante dos vencedores postados a cada esquina, no caso os representantes do regime repressor e da censura.

    Mas reagir como? Belchior instiga os jovens a adotarem uma nova postura e não se enclausurarem em casa contando dinheiro, como seus pais. A única certeza é que os jovens não perdem seus sonhos, são idealistas por natureza, sempre dispostos a novas e arejadas idéias, são capazes de revolucionar. É esse o "novo" que sempre vem. As mudanças, um novo futuro. Talvez vivemos sim como nossos pais. Gerações prostradas diante de um sistema, todas num conformismo triste.

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  2. Faz referencia a ditadura
    mostra que é mais fácil aceitar a situação (viver)
    do que lutar contra ela (sonhar), cria lembranças e épocas que as pessoas poderiam se encontrar nas ruas sem correr o risco de serem abordados por soldados nas esquinas, e se tem a oportunidade de reagir devem reagir e não fugir para o interior
    pois querendo ou não um dia as coisas vão mudar.
    E mesmo sendo uma musica "antiga" ainda é atual pois viemos em uma ditadura disfarçada
    só falta sonhar.

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  3. Muito boas as análises da Rafa e de Thomaz. Eu coloco uma opinião minha no debate: acredito que quando ele diz: "Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, tá em casa guardado por Deus contando vil metal", ele fala dos compositores que ouvia e de onde "aprendeu nos discos", chegando a conclusão que os ídolos dele, apenas "vendiam" suas idéias e gozavam do dinheiro obtido por esse comércio de influências. Eles, apenas replicavam isso, reproduzindo o "amor ao passado", afinal, ninguém mais, além deles, apareceu.

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  4. Como vocês já disseram, fala sobre a ditadura militar, em que "Eles venceram" e sobre o "perigo na esquina" e também que a ditadura não durará para sempre, por isso fala sobre o "novo".

    E também sobre o "ídolos", fala que dos "líderes" que iriam (ou irá) tirá-los desta situação estão longe, ou que simplesmente morreram e que não irá aparecer outro para fazer este papel...

    E que apesar de estarmos vivendo num tempo totalmente diferente em que nossos pais viviam, nos tornaremos iguais a eles.

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  5. Não há muito mais o que dizer sobre essa musica do que o que ja foi falado, mas, para não passar em branco, vou falar mais do sentimento que a musica passa, com poucas palavra e melodia simples Belchior consegue nos fazer sentir saudades, de uma epoca em que as pessoas lutavam po seus ideais e tambem dos idolos que motivavam essas pessoas,sentir tristeza por parecer que tudo foi em vão, mas ao mexmo tempo nos dá certa esperança no futuro, e nos diz que cabe a nós responsabilidade de lutar por um mundo melhor daqui para frente.

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